
Quem vai nos brindar com um relato belo e realista esta semana é o nosso “escritor do bem” Luis Eduardo Matta. Mais do que um texto literário de primeira, é um chamado para que tiremos os véus que insistimos em colocar nas mazelas que nos rodeiam.
Solidariedade e cidadania no coração da miséria
Por Luis Eduardo Matta
Recentemente, foi anunciado que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil – a soma das riquezas produzidas por uma nação – ultrapassou o do Reino Unido, alçando o país à posição de sexta maior economia mundial e inflando o orgulho patriótico. Porém, basta uma breve visita a alguma das inúmeras áreas carentes nos arrabaldes das capitais para esfriar esse ânimo e percebermos que a estatística mascara uma triste realidade à vista de todos: o Brasil permanece um país atrasado, atado a graves problemas socioculturais herdados do período colonial e aprofundados ao longo do tempo; problemas que até hoje não fomos capazes de superar.
A julgar pelo montante robusto de impostos que pagamos anualmente, o Estado deveria prover à população uma gama de serviços públicos de excelência. Salvo exceções, o que acontece é exatamente o oposto. É absurdo, por exemplo, constatar que boa parte da população da sexta economia do planeta vive atolada em uma infame situação de miséria, sem acesso a um sistema público de saúde decente, a escolas que cumpram o papel de ensinar e, o mais grave – com uma alimentação deficiente que, somada a condições insalubres de moradia, a transforma em potencial alvo de toda sorte de moléstias que encontram em organismos subnutridos um campo fértil para se proliferar.
O caso mais notório é o da tuberculose. Mais de seis décadas após a descoberta da cura, a doença continua a fazer vítimas no país. A maioria dos casos acontece, não por acaso, em áreas carentes como Vila Rosário, em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense situado às portas do Rio de Janeiro. Prisioneiros da espiral de ignorância que há gerações se retroalimenta em famílias para as quais nunca foram oferecidas possibilidades concretas de instrução, os moradores de Vila Rosário encontram-se muito abaixo das mínimas condições aceitáveis de cidadania. Pelas ruas áridas do bairro é visível a falta de quase tudo. Não há saneamento. A água encanada só recentemente aportou na região que, situada entre dois rios poluídos – o Iguaçu e o Sarapuí –, contava quase que somente com os comprometidos lençóis subterrâneos para servir às residências. A criminalidade, assim como a poeira, está por toda parte. Moradores de bairros de classe média – em especial, os que gostam de reclamar da vida –, deveriam conhecer de perto lugares como Vila Rosário. Caso tenham um pouco de bom senso, chegarão à conclusão de que não possuem, na verdade, problema algum.
A miséria é uma infâmia, malgrado a visão romântica de certa intelectualidade que insiste em lhe atribuir uma aura de pureza e redenção. Cansada de esperar por uma intervenção efetiva do poder público, parte da sociedade civil vem se mobilizando para enfrentá-la. Foi assim que surgiu, há mais de 10 anos, o Instituto Vila Rosário (IVR), uma fundação sem vínculos políticos, mantida por sócios e voluntários com o objetivo de combater doenças típicas da pobreza, com ênfase na tuberculose, cujo índice de incidência na região é dos mais elevados do país. Um dos coordenadores do IVR é o químico Claudio Costa Neto, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. Alguns minutos de conversa com Costa Neto já nos dão a dimensão do desafio a que ele se propôs, do nível de engajamento no instituto e, sobretudo, do seu aprofundado conhecimento do problema.
De saída, aprendemos que a tuberculose não é o mal em si, mas a face mais dramática da chamada Cadeia da Miséria. Essa cadeia é caracterizada por cinco elos: doença, fome, renda, educação e cultura. A doença é uma consequência da fome ou da nutrição deficiente. A fome, por sua vez, origina-se da renda insuficiente para comprar comida. A renda é baixa ou ausente porque as pessoas não possuem um nível de educação que garanta um trabalho com boa remuneração. Não há educação, porque não existe a cultura da educação, da busca pelo saber e, tampouco, a cultura do trabalho. Ou seja, a tuberculose somente será eliminada se todos os elos da “Cadeia da Miséria” forem combatidos. Enquanto isso, medicar os doentes, valendo-se dos recursos disponíveis, será não mais do que uma medida paliativa já que, para um contingente de pacientes curados, há outro que adoece, em um ciclo sem perspectivas de ser interrompido tão cedo.
Visita ao Instituto Vila Rosário
Na minha primeira visita à sede do Instituto Vila Rosário aprendi muito sobre a complexidade desse lado da sociedade e vi reforçadas algumas certezas. Uma delas é a da importância da educação em todos os segmentos das nossas vidas. A ignorância é uma força devastadora que atua permanentemente contra as pessoas, prejudicando-lhes o juízo crítico e cegando-as sobre o próprio bem-estar e sobre os aspectos mais óbvios do cotidiano. Um dos desafios do IVR, antes de iniciar qualquer tratamento, é convencer os tuberculosos de que eles precisam se tratar. Ainda que apresentem os sintomas mais evidentes da doença, muitos recusam o auxílio em um primeiro momento. Quando aceitam o tratamento, o desafio seguinte é monitorá-los para que sejam medicados adequadamente e pelo tempo necessário. No IVR, essa tarefa cabe a um grupo de agentes comunitárias que vão às casas dos pacientes, encaminham os doentes aos postos de saúde e acompanham todo o tratamento – do diagnóstico da doença até a cura.
Por conhecerem o drama de perto, essas bravas mulheres reuniram histórias impressionantes que põem a nu a intimidade dos domicílios assolados pela pobreza extrema, onde os casos de dependência em álcool e drogas ilícitas são numerosos; as famílias, muitas vezes, acomodam-se precariamente em um único cômodo. Um banco de dados informatizado na sede do Instituto Vila Rosário registra todas as ocorrências de tuberculose, detalhando os históricos dos pacientes atendidos ou em atendimento e mapeando permanentemente a área coberta pelo IVR.
A cura dos tuberculosos é urgente e, por isso mesmo, concentra os principais esforços do IVR. Mas a organização não governamental, ciente de que é preciso enfrentar a “Cadeia da Miséria” como um todo a fim de sanar definitivamente o problema, mantêm trabalhos em paralelo com vistas a dar melhores condições de vida à população local. Um deles, focado na educação e no incentivo à leitura, resultou na inauguração em 2010, na sede do instituto, da Biblioteca Octavio Alvarenga – homenagem ao célebre escritor, historiador e advogado falecido dois meses depois da inauguração. A iniciativa foi da editora Márcia Pereira, amiga e colaboradora ativa do IVR que, em pouco tempo, reuniu um acervo notável e diversificado, que vai dos clássicos à ficção infantojuvenil, passando por enciclopédias, dicionários e biografias.
A biblioteca e todas as atividades educacionais e culturais criadas em torno dela, desempenham um papel central na luta contra a “Cadeia da Miséria”, já que a ausência de educação e cultura está sedimentada nos seus alicerces. Ou seja, não é um delírio afirmar que a leitura será o grande instrumento para erradicar a tuberculose e outras moléstias de uma vez por todas, levando, enfim, a cidadania a áreas das quais, historicamente, ela sempre guardou distância.
* Luis Eduardo Matta
Considerado uma das vozes mais criativas e originais da nova literatura nacional, Luis Eduardo Matta iniciou sua carreira literária em 1993, aos 18 anos, com o livro “Conexão Beirute-Teeran” (Chamaeleon Edições).
É autor, ainda, dos thrillers “O véu” (Primavera Editorial), “120 horas” (Editora Planeta) e “Ira Implacável” (Razão Cultural Editora); dos juvenis “Morte no colégio” (Editora Ática) e “O dia seguinte” (Escrita Fina Edições), e das séries “Os caça-mistérios” (Editora Ática), de histórias policiais infantojuvenis, e “As bem resolvidas(?)” (Editora Vermelho Marinho), de livros chick lit YA. Participou das antologias de contos “Território V” (Terracota Editora), “Dimensões.BR” (Editora Andross), “Jogos criminais” (Editora Andross) e “Internautas: os chips reinventando o nosso dia a dia” (Editora Melhoramentos).
Em breve, vamos postar mais textos do projeto Escritores do Bem. Aguarde!